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Não Faleis mal uns dos outros...

Cláudio Fajardo

Não faleis mal uns dos outros, irmãos. Aquele que fala mal de um irmão julga o seu irmão fala mal da Lei e julga a Lei. Ora, se julgas a Lei, já não estás praticando a Lei, mas te fazes juiz da Lei. (Tiago, 4: 11)

Não faleis mal uns dos outros; mais uma vez esta carta nos faz lembrar o Sermão do Monte. Vamos encontrar ensinamento semelhante nas anotações de Mateus, no capítulo sétimo nos versículos de um a cinco.

Falar mal de alguém é na prática ter a atitude negativa a que se refere o versículo anterior.

Quem fala mal do outro se julga superior ao outro, exalta-se e humilha aquele a quem difama.

Se sabemos que esta não é uma atitude desejável para aquele que preocupa com o seu processo de auto-educação à luz do Evangelho, será bem vinda a seguinte reflexão:

Por que falamos mal de alguém?

Há sempre uma atitude de puritanismo quando assim procedemos. Julgamos o outro, salientamos os seus erros, e automaticamente nos colocamos na posição daquele que está sempre certo, ou que é infalível.

Praticamos também a intolerância e a incompreensão.

Veja que sem aprofundar tanto a questão nesta simples atitude pudemos enumerar várias ações contrárias ao que se deseja do cristão.

O outro seja quem for é também um filho de Deus imperfeito como nós mesmos, que a seu modo busca acertar. É alguém que um dia realizará de forma mais efetiva seu progresso para o bem, e na maioria das vezes se erra não é por maldade, mas por ignorância. Na linguagem dos Espíritos consoladores, mesmo quando age pautado no erro ou contrariando a Vontade de Deus é mais um enfermo do que propriamente um malvado.

E além do mais, estamos nós na condição de julgar alguém?

Irmãos; é importante lembrar que Tiago escrevia a seus irmãos de fé, eram como ele mesmo judeus convertidos ao Cristo, e traziam em sua bagagem psíquica inumeráveis viciações, entre elas o orgulho e a intolerância.

Hoje, mais conscientes que estamos sabemos que não é fácil vencer imperfeições que cultivamos por longo tempo. O processo de transformá-las em virtudes denota tempo, sacrifício e perseverança.

Se entre judeus a palavra irmão já tinha um grande significado no sentido de nos fazer mais compreensivos uns em relação aos outros, o que não dizer desta expressão quando considerada por um cristão?

Aquele que fala mal de um irmão julga o seu irmão; já comentamos esta colocação, entretanto o evangelista vai além, fala mal da Lei e julga a Lei.

Lei que traduz o grego nomos, traduz, mesmo que com imperfeição, o hebraico Torah.

A Torah era para o judeu a questão fundamental da vida. Ele vivia em torno dela, para ela e por ela. Seu objetivo maior era cumprir a Torah. A sociedade judaica era uma sociedade teocêntrica, tinha Deus por centro de tudo, e a Torah era a revelação mais pura vinda diretamente do Senhor Criador de todas as coisas.

A Torah asseverava:

Não serás um divulgador de maledicências a respeito dos teus e não sujeitarás a julgamento o sangue do teu próximo. Eu sou IHWH.1

Portanto, ao falar mal ou julgar um irmão, aquele que assim o fazia estava agindo contrário ao mandamento de Deus. Em nossa mentalidade ocidental do século XXI não temos a noção do que isso significa, mas para o judeu daquele tempo era algo muito grave.

Por isso Tiago que era conhecedor da Torah e tinha por ela enorme respeito e carinho, mostrava que ao agir assim estava o homem falando mal e julgando a própria Torah, e isso era um crime mortal.

Nós, nos dias de hoje, somos muito liberais, não temos bem a noção do que seja respeitar uma lei, basta ver que infringimos nossa constituição a todo momento, e quando questionados a respeito dizemos que trata-se de uma lei que não “pegou”, como se lei fosse um modismo qualquer.

A mesma indiferença praticamos em relação aos princípios de moral propostos pelas religiões. É preciso levarmos um pouco mais a sério esta questão.

Os ensinamentos de Jesus são revelações de grande alcance, são Leis Universais; Jesus é a Torah Viva que o Pai permitiu que viesse a nós devido a sua Excelente Misericórdia. Assim, tenhamos mais atenção com o que Ele nos deixou como ensinamento; não praticar o que Ele propôs a nós como instrumento de libertação, é julgá-Lo, é falar mal Dele que é o Imaculado por Excelência.

Como conclusão o apóstolo que vestiu-se de pescador mas que era um sábio em duas dissertações nos assevera:

Ora, se julgas a Lei, já não estás praticando a Lei, mas te fazes juiz da Lei.

E nós parafraseando-o poderíamos dizer:

Ora, se julgas a Jesus, já não estás praticando Jesus, mas te fazes juiz de Jesus.
Será que em sã consciência temos condições morais para tal realização?

Cláudio Fajardo

 

1 Levítico, 19: 16

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