Menos é mais
2013-04-04 08:18:28

Por Alexandre Rodrigues | Para o Valor, de São Paulo 

Criado em um apartamento de 600 metros quadrados na Barra da Tijuca, no Rio, o escritor carioca Alex Castro cresceu tendo para si um quarto com mais de 20 metros quadrados. Hoje vive em um apartamento pouco maior do que isso. Nos 22 metros que ocupa, em Copacabana, são poucos os móveis e objetos e, se há um sofá e uma rede, não há espaço para uma cama. Nem gavetas nem armários, exceto um pequeno, de limpeza. Além de três pares de sapatos, seus pertences são outros três de Havaianas, três calças, uma camisa, 12 camisetas (número aproximado), dois casacos, um blazer, dois jogos de toalhas, dois de cama, alguns utensílios de cozinha, um notebook, um Kindle, um celular e uma câmera digital. Poderia ser uma história de ruína financeira, mas se trata de um fenômeno cada vez mais observável. Castro aderiu a um estilo de vida minimalista.

Como os movimentos artísticos do século passado que lhe emprestam o nome, o minimalismo do século XXI prega a redução do estilo de vida ao essencial. O fenômeno ganhou uma vertente importante a partir da digitalização da cultura e da internet. As músicas se tornaram MP3, descartando os CDs. Serviços como o Netflix, que passam filmes em "streaming", e "torrents" feriram de morte os DVDs. Os livros ainda resistem, mas para muitos é questão de tempo - a Amazon já vende mais livros eletrônicos do que físicos e hoje uma biblioteca inteira pode ser guardada e lida em um "tablet" ou Kindle. Veio a crise na economia mundial e a ideia de consumir menos ganhou novos adeptos.

"Não tenho um simples CD ou DVD e tenho só 10% dos livros que já tive", escreveu Graham Hill, milionário da bolha da internet, na semana passada, no jornal "The New York Times". Após enriquecer vendendo sua primeira empresa, Sitewerks, por mais de US$ 300 milhões em 1998, ele se viu de uma hora para outra comprando óculos de US$ 300, "gadgets" de todo tipo e com um Volvo turbo na garagem. A certa altura, sem tempo, tinha um "personal shopper", treinado em seus gostos pessoais, para não precisar ir às compras pessoalmente.

Com o tempo, sua vida se complicou. Decidiu mudar-se para um apartamento de quatro andares em Nova York, que precisava de novos móveis e acessórios. O momento em que decidiu abandonar tudo veio quando conheceu Olga, nascida em Andorra, que o fez deixar os Estados Unidos e ir morar em um pequeno apartamento em Barcelona. Depois, nem isso.

O casal viveu como nômade entre Buenos Aires, Bangcoc, na Tailândia, e Toronto, no Canadá. Mesmo o romance tendo acabado, Hill não voltou à antiga vida: "Eu gosto de coisas materiais tanto quanto qualquer um. Estudei design de produtos no colégio. Apoio 'gadgets', roupas e todos os tipos de coisas. Mas minhas experiências mostram que depois de certo ponto os objetos materiais têm uma tendência a piorar as necessidades emocionais que deveriam apoiar".

"Os objetos têm tendência a piorar as necessidades emocionais que deveriam apoiar", afirma o milionário Graham Hill

Histórias como a dele se contrapõem a um fenômeno: somos acumuladores. Não é preciso recorrer a casos extremos de pessoas que vivem cercadas pelo próprio lixo. Em um estudo da Universidade da Califórnia, antropólogos submergiram por nove anos na vida de 32 famílias de classe média americanas. Fotografaram cada objeto que entrava nas casas, registrando o atulhamento. Constataram que gerenciar a quantidade de tralhas acumuladas é uma das prioridades de qualquer morador adulto e que há uma curiosa correlação entre a bagunça de ímãs e bilhetes na porta da geladeira e do resto da casa. E a melhor de todas: 75% das garagens estavam tão lotadas de quinquilharias que já não permitiam a entrada dos carros.

Nas últimas décadas, estudos de psicologia revelaram os efeitos negativos desse hábito. Pessoas consumistas são mais ansiosas, infelizes e antissociais, concluíram, em uma série de estudos, dois pesquisadores americanos, Tim Kasser e Aaron Ahuvia. No ano passado, um trabalho conduzido por Galen V. Bodenhausen, da Universidade Northwestern, também nos Estados Unidos, chegou às mesmas conclusões, acrescentando que entre os consumistas desenfreados as taxas de bem-estar eram mais baixas do que em outros grupos.

O culto do "viver com menos" propõe uma ida ao extremo oposto. Não é um movimento, mas um fenômeno de muitas facetas, sem causa única e nenhuma regra. Mesmo assim, a ideologia minimalista se espalha na internet, com centenas de sites, blogs e perfis em redes sociais contando experiências e dando sugestões. "Não sei bem se há um movimento. Mas existem cada vez mais pessoas pensando que é simplesmente insustentável a quantidade de objetos que carregamos pela vida", diz Alex Castro, que discute o minimalismo em seu site pessoal (alexcastro.com.br).

Ler a respeito fez Andrew Hyde, escritor e consultor de "startups", desistir do apartamento onde acumulava coisas de uma vida toda. Primeiro, reduziu todos os pertences a cem itens. Concluiu: ainda era demais. Em agosto de 2010, pôs à venda quase tudo e ficou com apenas 15 coisas. Desde então, é o máximo de objetos que se permite ter. Descoberto por um radialista, ficou famoso. Aproveitou a notoriedade e, com itens como uma mochila, um par de camisas (veste uma a cada dois dias), um iPhone e uma toalha, viajou por 15 países, inclusive o Brasil no segundo semestre de 2012, reunindo histórias para o livro "A Modern Manual - 15 Countries with 15 Things" (Um manual moderno - 15 países com 15 coisas").

"Quando algo estraga, tento consertar. Se não consigo, compro algo parecido na loja", conta. E não foi só. Além de ter só 15 coisas, decidiu, como Hill, não ter mais moradia fixa. Continua viajando e cumprindo, em paralelo ao projeto minimalista, uma lista de desafios pessoais, como correr uma maratona (cumpriu), cair na festa em Barcelona (cumpriu) e escalar grandes montanhas (a cumprir).

 
DivulgaçãoA alemã Heidemarie, que viveu sem dinheiro por 15 anos até ser descoberta pela BBC e virar tema do documentário: aposentada e autora de três livros, ela doa tudo o que ganha para a caridade

 

"É um processo de anos. Você vai percebendo que precisa de menos coisas. Que não precisa de dez calças, de dez pares de sapatos. Que não precisa ter na estante todos os livros que leu", diz Alex Castro. Ele se preocupa agora em manter o estilo de vida espartano também no mundo digital. "Não guardo filme algum. Sempre que assisto, apago."

O conceito não é novo. Sem contar o exemplo do filósofo Diógenes, que na Grécia Antiga condenava os luxos da civilização e viveu em um barril, e uma penca de santos, Steve Jobs foi um minimalista. Uma ironia, já que parte importante de seus negócios era convencer pessoas a abandonar seus antigos MacBooks, iPhones, iPods e iPads por novos modelos. Mesmo rico, quando solteiro ele vivia praticamente sem nada: uma foto de Einstein em um porta-retratos, uma luminária, uma cadeira e uma cama. O humorista Ronald Golias (morto em 2005), outro adepto das poucas posses, dizia que cada uma significava uma nova responsabilidade e com um número pequeno podia usufruir melhor de todas.

A ideia de que podemos viver com bem menos - no caso, espaço - também está por trás de alguns empreendimentos imobiliários recentes em São Paulo. Apartamentos de pouco mais de 20 metros quadrados já são comuns nos lançamentos em bairros como Campo Limpo, Brooklin e Bela Vista. Repete-se aqui a tendência já verificada em metrópoles como Montreal, Hong Kong e Tóquio, onde a falta de espaço fez dos "miniflats" o padrão nas construções.

 


Leia o texto completo em:

http://www.valor.com.br/cultura/3055660/menos-e-mais

 





 Publicado em: 2013-04-04 por admin, última modificação em: 2013-04-04 por admin